Casos de Endoftalmite nos mutirões de catarata: o que podemos aprender com eles?

RESUMO

Os mutirões de cirurgia de catarata constituem uma estratégia relevante para a redução da cegueira evitável no Brasil. Entretanto, surtos de endoftalmite pós-operatória associados a essas campanhas têm sido repetidamente descritos em diferentes estados brasileiros, configurando eventos adversos graves, com impacto significativo na visão e qualidade de vida dos pacientes acometidos. Este estudo, tem como objetivo analisar casos de endoftalmite ocorridos em mutirões de catarata no Brasil, identificar falhas relacionadas ao controle de infecção e discutir medidas preventivas essenciais para a realização segura dessas ações. Observa-se que a maioria dos surtos esteve associada ao descumprimento de medidas básicas de assepsia, falhas no processamento de produtos para saúde, infraestrutura inadequada e ausência de vigilância epidemiológica efetiva. Conclui-se que a prevenção da endoftalmite em mutirões de catarata depende do planejamento adequado, da avaliação criteriosa dos pacientes, da estruturação correta da Central de Material e Esterilização e do cumprimento rigoroso das normas de controle de infecção.

Palavras-chave: Endoftalmite. Catarata. Controle de infecção. Mutirões. Cirurgia oftalmológica.

INTRODUÇÃO

​A cirurgia de catarata é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados mundialmente e apresenta elevados índices de sucesso quando executada sob condições adequadas de segurança e qualidade assistencial. No Brasil, os mutirões de catarata foram implementados como estratégia para ampliar o acesso ao tratamento, reduzir filas de espera e minimizar o impacto da cegueira evitável, especialmente em regiões com limitações de oferta de serviços oftalmológicos.

​Apesar de sua relevância social, diversos surtos de endoftalmite pós-operatória têm sido associados a mutirões de catarata realizados em diferentes estados brasileiros, revelando fragilidades importantes nos processos assistenciais. A endoftalmite é uma inflamação intraocular grave, geralmente de etiologia infecciosa, que pode evoluir rapidamente para perda visual irreversível e, em casos extremos, para a perda do globo ocular.

​A importância deste estudo justifica-se pela necessidade de sistematizar as lições aprendidas a partir desses surtos, evidenciando que a ampliação do acesso à cirurgia não pode ocorrer em detrimento da segurança do paciente. A análise crítica desses eventos é fundamental para subsidiar gestores, profissionais de saúde e equipes de controle de infecção na elaboração de estratégias que garantam a realização de mutirões de forma segura, ética e tecnicamente adequada.

METODOLOGIA

​Trata-se de uma revisão narrativa de surtos de endoftalmite associados a mutirões de cirurgia de catarata no Brasil, baseada em relatos técnicos, publicações científicas, documentos institucionais e informações amplamente divulgadas por órgãos de saúde. Foram analisados dados referentes ao número de pacientes operados, número de casos de endoftalmite, causas prováveis e desfechos clínicos, com foco na identificação de falhas relacionadas ao controle de infecção.

DESENVOLVIMENTO: RELATOS DE CASOS EM MUTIRÕES DE CATARATA NO BRASIL

​No estado do Amapá, um mutirão de catarata resultou em um surto de grandes proporções, com mais de cem pacientes apresentando endoftalmite após o procedimento cirúrgico. O agente etiológico identificado foi o fungo do gênero Fusarium, sugerindo contaminação relacionada a materiais, soluções ou falhas no processamento de instrumentais. Muitos pacientes evoluíram com perda visual grave, e alguns necessitaram de procedimentos mutilantes, como a enucleação.

​Nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Maranhão, foram relatados surtos menores, porém clinicamente relevantes, associados a campanhas de alto volume cirúrgico. As investigações apontaram falhas no reprocessamento de produtos para saúde, uso inadequado de campos e luvas, ausência de troca adequada de materiais entre pacientes e deficiências nos processos de esterilização.

​De forma geral, os surtos ocorreram em contextos caracterizados pela realização de grande número de cirurgias em curto período, frequentemente em ambientes improvisados ou sem infraestrutura compatível com a complexidade do procedimento.

CAUSAS RELACIONADAS AO CONTROLE DE INFECÇÃO

​A análise dos surtos demonstra que as principais causas de endoftalmite nos mutirões de catarata estão relacionadas ao descumprimento de medidas básicas de controle de infecção. Destacam-se a não observância da troca de luvas, capotes e campos cirúrgicos entre procedimentos, a reutilização inadequada de materiais, falhas na limpeza e esterilização dos instrumentais e a possível contaminação de soluções intraoculares.

​Outro fator crítico identificado é a ausência de vigilância epidemiológica efetiva dos casos de endoftalmite. A vigilância epidemiológica pode ser definida como um conjunto contínuo e sistemático de ações que envolvem a coleta, análise, interpretação e disseminação de dados relacionados a eventos de saúde, com o objetivo de orientar medidas de prevenção e controle. A inexistência de sistemas de vigilância ativos dificulta a detecção precoce de casos, atrasa a adoção de medidas corretivas e favorece a ocorrência de surtos de grandes proporções.

​Além disso, a pressão por produtividade e a sobrecarga das equipes contribuem para a redução do tempo necessário ao processamento adequado dos materiais e à limpeza do ambiente cirúrgico, aumentando o risco de contaminação cruzada.

DESFECHOS CLÍNICOS

Os desfechos clínicos da endoftalmite pós-cirúrgica associada a mutirões são frequentemente desfavoráveis. Mesmo com tratamento adequado, muitos pacientes evoluem com redução permanente da acuidade visual. Em surtos mais graves, foram registrados casos de cegueira irreversível e necessidade de remoção do globo ocular, com impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes e repercussões éticas, legais e institucionais para os serviços de saúde envolvidos.

MEDIDAS DE PREVENÇÃO E RECOMENDAÇÕES

​A prevenção da endoftalmite em mutirões de catarata exige uma abordagem multidimensional baseada em planejamento, estrutura adequada e rigor técnico.

​A avaliação pré-operatória do paciente é uma medida essencial e frequentemente negligenciada. É fundamental identificar condições clínicas que aumentem o risco de infecção, como blefarite ativa, conjuntivites, infecções sistêmicas ou focos infecciosos em outros sítios. Pacientes com essas condições devem ter a cirurgia adiada até a resolução do quadro clínico, reduzindo significativamente o risco de endoftalmite.

​Os mutirões devem ser realizados exclusivamente em serviços com infraestrutura hospitalar adequada, incluindo uma Central de Material e Esterilização (CME) estruturada conforme os requisitos da RDC nº 15, caracterizada como CME classe II. Essa estrutura deve garantir fluxo unidirecional dos materiais, com separação física entre as áreas suja, limpa e estéril, evitando a contaminação cruzada.

​A CME deve dispor, no mínimo, de equipamentos essenciais, como lavadora ultrassônica para limpeza eficaz dos instrumentais e autoclaves devidamente qualificadas e validadas, com monitoramento sistemático dos ciclos de esterilização por indicadores físicos, químicos e biológicos.

​Outras medidas indispensáveis incluem a troca obrigatória de luvas, campos e capotes entre todos os pacientes, o uso de técnicas padronizadas de assepsia ocular e a limitação do número de cirurgias de acordo com a capacidade operacional do serviço.

​A implementação de vigilância epidemiológica ativa, com notificação imediata de casos suspeitos e suspensão precoce das atividades diante de eventos adversos, é fundamental para prevenir surtos e minimizar danos.

​O dimensionamento adequado da equipe de enfermagem é essencial para a segurança do paciente e para a prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde em mutirões de cirurgia de catarata. A insuficiência de profissionais ou a composição inadequada da equipe favorecem a sobrecarga de trabalho, o descumprimento de protocolos assistenciais e o aumento do risco de eventos adversos, incluindo a endoftalmite pós-operatória.

​Em contextos de alto volume cirúrgico, a enfermagem desempenha papel fundamental em todas as etapas do processo assistencial, desde a avaliação pré-operatória até o pós-operatório imediato. Quando o quantitativo de profissionais é incompatível com a demanda, atividades críticas como o processamento adequado dos instrumentais, a admissão do paciente, abertura da sala cirúrgica de forma asséptica podem ser comprometidas, elevando o risco de infecção.

CONCLUSÃO

​Os casos de endoftalmite associados a mutirões de catarata no Brasil evidenciam que a negligência em medidas básicas de controle de infecção pode transformar uma estratégia de saúde pública em um grave problema sanitário e seus desdobramentos podem impactar a qualidade de vida e principalmente da visão dos pacientes acometidos por caso de Endoftalmite. 

​O aprendizado decorrente desses eventos reforça que a segurança do paciente deve ser prioridade absoluta, independentemente do volume de cirurgias realizadas. O sucesso dos mutirões depende do respeito às boas práticas assistenciais, da avaliação criteriosa dos pacientes, da infraestrutura adequada e da atuação efetiva da vigilância epidemiológica.

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