Casos de Endoftalmite em Mutirões de Catarata no Brasil: o que podemos aprender com eles? Uma análise crítica sob a perspectiva da segurança do paciente

RESUMO

A cirurgia de catarata representa o procedimento oftalmológico mais realizado no mundo e constitui uma das principais estratégias para redução da cegueira evitável. No Brasil, a elevada demanda reprimida motivou a implantação de mutirões cirúrgicos como alternativa para ampliar o acesso da população ao tratamento. Embora apresentem importante impacto social, episódios recentes de surtos de endoftalmite associados a mutirões de catarata evidenciaram fragilidades relacionadas ao planejamento assistencial, ao processamento de produtos para saúde, ao controle de infecção e à gestão da qualidade. O presente estudo tem como objetivo analisar criticamente os principais casos de endoftalmite relacionados a mutirões de catarata ocorridos no Brasil, identificando fatores contribuintes e discutindo as medidas preventivas preconizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), pela RDC nº 15/2012, pelas orientações do Conselho Federal de Medicina e pelas boas práticas em segurança do paciente. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, fundamentada em documentos normativos, publicações científicas nacionais e internacionais e análise dos surtos amplamente divulgados pelos órgãos oficiais e pela mídia. Observa-se que a maioria dos eventos adversos graves esteve relacionada não ao procedimento cirúrgico em si, mas à combinação de falhas sistêmicas envolvendo gestão, infraestrutura, processamento de materiais, monitoramento microbiológico, rastreabilidade e assistência pós-operatória. Conclui-se que a prevenção da endoftalmite depende da implementação rigorosa das boas práticas assistenciais, do fortalecimento da cultura de segurança do paciente e do planejamento criterioso dos mutirões cirúrgicos, garantindo que o aumento da produtividade não comprometa a qualidade da assistência.

Palavras-chave: Endoftalmite. Catarata. Mutirão cirúrgico. Segurança do paciente. Centro de Material e Esterilização. Oftalmologia. Infecção relacionada à assistência à saúde.

1 INTRODUÇÃO

A catarata permanece como a principal causa de cegueira reversível no mundo, sendo responsável por aproximadamente metade dos casos de deficiência visual evitável. Caracteriza-se pela opacificação progressiva do cristalino, comprometendo a passagem da luz até a retina e ocasionando redução gradual da acuidade visual, perda da sensibilidade ao contraste e limitação das atividades diárias. O tratamento é exclusivamente cirúrgico e consiste na remoção do cristalino opacificado, seguida da implantação de uma lente intraocular, procedimento considerado altamente seguro e eficaz quando realizado em condições adequadas de qualidade assistencial.

Nas últimas décadas, o aumento da expectativa de vida da população brasileira contribuiu significativamente para o crescimento da demanda por cirurgias de catarata. Como estratégia para reduzir filas de espera e ampliar o acesso da população ao tratamento, diversos estados e municípios passaram a realizar mutirões cirúrgicos, concentrando grande número de procedimentos em curto espaço de tempo. Quando devidamente planejados, esses programas representam importante política pública de saúde, permitindo recuperação visual, melhora da qualidade de vida e redução do impacto socioeconômico da deficiência visual.

Entretanto, o aumento expressivo do volume cirúrgico exige que todos os processos assistenciais mantenham os mesmos padrões de qualidade adotado nas cirurgias eletivas rotineiras. A segurança do paciente deve permanecer como princípio fundamental durante todas as etapas do cuidado, abrangendo desde a seleção dos pacientes, processamento dos produtos para saúde, controle microbiológico dos ambientes, preparo das equipes, gerenciamento de medicamentos, esterilização dos instrumentais, realização do procedimento e acompanhamento pós-operatório.

Nos últimos anos, diversos surtos de endoftalmite associados a mutirões de catarata foram registrados no Brasil, despertando grande repercussão científica e social. Casos ocorridos em diferentes estados evidenciaram elevado número de pacientes acometidos por infecções oculares graves, muitas delas culminando em perda visual permanente e necessidade de procedimentos cirúrgicos adicionais. Paralelamente, alguns surtos inicialmente suspeitos de origem infecciosa revelaram tratar-se da Síndrome Tóxica do Segmento Anterior (Toxic Anterior Segment Syndrome – TASS), uma reação inflamatória estéril decorrente da introdução de substâncias tóxicas na câmara anterior durante a cirurgia. Esses episódios reforçaram a importância do diagnóstico diferencial entre as duas condições, uma vez que apresentam manifestações clínicas semelhantes nas fases iniciais, porém requerem abordagens terapêuticas completamente distintas.

Embora a endoftalmite pós-operatória seja considerada evento raro, sua ocorrência representa uma das complicações mais devastadoras da cirurgia oftalmológica. A literatura demonstra que sua incidência pode ser significativamente reduzida mediante adoção rigorosa de medidas preventivas baseadas em evidências científicas, incluindo preparo adequado da superfície ocular com povidona-iodo, uso racional de antibióticos intracamerais, processamento correto dos produtos para saúde, rastreabilidade dos instrumentais, monitoramento dos processos de esterilização e capacitação permanente das equipes.

Reconhecendo a gravidade desses eventos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou o Caderno 9 – Medidas de prevenção de endoftalmites e da Síndrome Tóxica do Segmento Anterior relacionadas a procedimentos oftalmológicos invasivos, consolidando recomendações técnicas voltadas para prevenção, investigação e gerenciamento desses eventos adversos. Da mesma forma, a RDC nº 15/2012 estabeleceu requisitos de boas práticas para o processamento de produtos para saúde, enquanto o Conselho Federal de Medicina publicou orientações específicas reforçando que mutirões cirúrgicos devem obedecer aos mesmos padrões técnicos, éticos e assistenciais exigidos para qualquer procedimento eletivo.

Sob a perspectiva da segurança do paciente, surtos dessa natureza não devem ser interpretados como eventos isolados ou decorrentes exclusivamente de falhas individuais. Ao contrário, representam falhas sistêmicas envolvendo múltiplas barreiras de segurança que deixaram de funcionar simultaneamente. Esse entendimento aproxima-se dos princípios contemporâneos de gestão da qualidade, segundo os quais eventos adversos graves geralmente resultam da interação entre fatores humanos, organizacionais, estruturais e assistenciais.

Dessa forma, compreender os fatores que contribuíram para os surtos brasileiros torna-se fundamental para fortalecer as práticas de prevenção e evitar recorrências. Mais do que identificar culpados, faz-se necessário analisar criticamente os processos envolvidos, reconhecendo oportunidades de melhoria capazes de aumentar a segurança dos pacientes submetidos às cirurgias oftalmológicas.

Nesse contexto, este estudo tem como objetivo analisar os principais casos de endoftalmite relacionados aos mutirões de catarata ocorridos no Brasil, discutir os fatores associados à sua ocorrência e correlacioná-los com as recomendações técnicas vigentes, destacando as lições aprendidas para o fortalecimento da cultura de segurança do paciente nos serviços de oftalmologia.

2 METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo e analítico, desenvolvida com o objetivo de discutir os principais surtos de endoftalmite associados aos mutirões de cirurgia de catarata ocorridos no Brasil e analisar criticamente as medidas de prevenção preconizadas pelos órgãos reguladores, sob a perspectiva da segurança do paciente.

A busca bibliográfica será realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), utilizando os descritores em português e inglês: “endoftalmite”, “endophthalmitis”, “cataract surgery”, “mutirão cirúrgico”, “patient safety”, “Toxic Anterior Segment Syndrome”, “TASS”, “Centro de Material e Esterilização”, “reprocessing”, “ophthalmology” e “infection prevention”, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR.

Além dos artigos científicos, foram incluídos documentos normativos e publicações técnicas considerados referência para o tema, destacando-se o Caderno 9 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA): Medidas de prevenção de endoftalmites e da Síndrome Tóxica do Segmento Anterior relacionadas a procedimentos oftalmológicos invasivos, a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 15, de 15 de março de 2012, que dispõe sobre os requisitos de boas práticas para o processamento de produtos para saúde, a RDC nº 36, de 25 de julho de 2013, que institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde, bem como documentos técnicos do Ministério da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Conselho Federal de Medicina (CFM), da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO) e da Associação Brasileira de Enfermeiros de Centro Cirúrgico, Recuperação Anestésica e Centro de Material e Esterilização (SOBECC).

Também foram analisados relatórios técnicos, notas informativas, investigações epidemiológicas e notícias divulgadas por órgãos oficiais e veículos de comunicação de ampla circulação referentes aos surtos de endoftalmite relacionados a mutirões de catarata ocorridos no Brasil entre os anos de 2010 e 2025. A utilização desses casos teve caráter documental e analítico, buscando identificar fatores recorrentes associados aos eventos adversos, tais como falhas no processamento de produtos para saúde, inadequações na infraestrutura, problemas relacionados ao gerenciamento de risco, deficiências no planejamento assistencial e fragilidades nos sistemas de vigilância epidemiológica.

A análise dos dados foi conduzida de forma qualitativa, mediante comparação entre as recomendações das normas sanitárias vigentes e as circunstâncias descritas nos surtos investigados, permitindo discutir os fatores sistêmicos que contribuíram para a ocorrência dos eventos e identificar oportunidades de melhoria voltadas ao fortalecimento da segurança do paciente em procedimentos oftalmológicos de alta demanda.

3 DESENVOLVIMENTO

3.1 A catarata como problema de saúde pública

A catarata caracteriza-se pela opacificação parcial ou total do cristalino, lente biconvexa localizada posteriormente à íris e anteriormente ao corpo vítreo, responsável pela focalização da luz sobre a retina. A perda progressiva da transparência dessa estrutura compromete a passagem da luz, resultando em diminuição gradual da acuidade visual, redução da sensibilidade ao contraste, aumento do ofuscamento e prejuízo significativo das atividades de vida diária.

O envelhecimento representa o principal fator de risco para o desenvolvimento da catarata, embora outras condições, como diabetes mellitus, uso prolongado de corticosteroides, traumatismos oculares, radiação ultravioleta, doenças inflamatórias e fatores genéticos, também possam contribuir para sua ocorrência. Em decorrência da transição demográfica observada nas últimas décadas, estima-se que a demanda por cirurgia de catarata continuará aumentando progressivamente nos próximos anos, impondo importantes desafios aos sistemas de saúde em todo o mundo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a catarata permanece como a principal causa de cegueira reversível no planeta, sendo responsável por aproximadamente metade dos casos de cegueira evitável. No Brasil, representa uma das principais indicações cirúrgicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), configurando importante problema de saúde pública em razão do impacto funcional, econômico e social decorrente da perda visual.

O tratamento da catarata é exclusivamente cirúrgico, consistindo na remoção do cristalino opacificado por meio da técnica de facoemulsificação ou extração extracapsular, seguida da implantação de uma lente intraocular. Nas últimas décadas, a facoemulsificação consolidou-se como o padrão-ouro devido à menor incisão cirúrgica, recuperação visual mais rápida, menor indução de astigmatismo e menores taxas de complicações.

Atualmente, a cirurgia de catarata apresenta índices de sucesso superiores a 95%, sendo considerada um dos procedimentos cirúrgicos mais seguros da medicina moderna. Entretanto, embora rara, a ocorrência de complicações infecciosas ou inflamatórias graves, como a endoftalmite infecciosa e a Síndrome Tóxica do Segmento Anterior (TASS), pode comprometer de forma irreversível a visão do paciente, justificando a adoção rigorosa de medidas preventivas em todas as etapas do processo assistencial.

O expressivo aumento da demanda por esse procedimento levou gestores públicos e privados a adotarem estratégias para ampliação do acesso ao tratamento, destacando-se os mutirões cirúrgicos, iniciativas responsáveis por reduzir filas de espera e recuperar a qualidade de vida de milhares de pacientes. Entretanto, o aumento da produtividade não pode ocorrer em detrimento da segurança assistencial, tornando indispensável o fortalecimento das barreiras de prevenção de eventos adversos.

Nesse contexto, compreender os riscos associados às cirurgias oftalmológicas de grande volume torna-se essencial para garantir que o acesso ampliado aos serviços ocorra em conformidade com os princípios da qualidade e da segurança do paciente.

3.2 Endoftalmite: definição, classificação e aspectos clínicos

A endoftalmite é uma condição inflamatória grave do segmento intraocular, geralmente de etiologia infecciosa, caracterizada pela presença de microrganismos no interior do globo ocular, envolvendo cavidade vítrea e/ou câmara anterior. Trata-se de uma das complicações mais temidas da cirurgia oftalmológica, especialmente da cirurgia de catarata, em virtude do potencial de rápida progressão e do risco elevado de perda visual irreversível.

Do ponto de vista etiológico, a endoftalmite pode ser classificada em exógena, quando ocorre por inoculação direta de microrganismos no interior do olho durante ou após procedimentos cirúrgicos, traumas penetrantes ou injeções intraoculares; e endógena, quando resulta de disseminação hematogênica a partir de um foco infeccioso sistêmico. Na prática clínica oftalmológica, a forma exógena pós-operatória é a mais prevalente.

Quanto à temporalidade, a endoftalmite pode ser subdividida em aguda, geralmente ocorrendo até seis semanas após o procedimento cirúrgico, e crônica, quando os sintomas se desenvolvem de forma insidiosa após esse período, frequentemente associada a microrganismos de baixa virulência, como Propionibacterium acnes (atualmente Cutibacterium acnes).

3.2.1 Fisiopatologia

A fisiopatologia da endoftalmite envolve a entrada de agentes infecciosos no interior do olho, seguida de uma resposta inflamatória intensa mediada pelo sistema imune. A cavidade vítrea, por sua natureza avascular e limitada capacidade de defesa imunológica, constitui ambiente propício para proliferação bacteriana, favorecendo rápida multiplicação microbiana e liberação de toxinas.

A resposta inflamatória subsequente leva à liberação de citocinas pró-inflamatórias, recrutamento de neutrófilos e formação de exsudato purulento, resultando em opacificação dos meios oculares, aumento da pressão intraocular e destruição progressiva das estruturas intraoculares. Em casos graves, pode ocorrer necrose tecidual e perda funcional irreversível da retina.

3.2.2 Principais agentes etiológicos

Os microrganismos mais frequentemente associados à endoftalmite pós-operatória são bactérias da flora ocular e periocular do próprio paciente, destacando-se:

  • Staphylococcus epidermidis (mais frequente em casos de baixa virulência);
  • Staphylococcus aureus (associado a quadros mais agressivos);
  • Streptococcus spp. (associado a pior prognóstico visual);
  • Enterococcus faecalis (frequentemente relacionado a evolução desfavorável);
  • bacilos Gram-negativos, como Pseudomonas aeruginosa, especialmente em surtos relacionados a falhas de processamento ou contaminação ambiental.

Em menor frequência, podem estar envolvidos fungos, como Candida spp. e Fusarium spp., particularmente em cenários de contaminação de soluções, instrumentos ou ambientes inadequadamente controlados.

3.2.3 Manifestações clínicas

A apresentação clínica da endoftalmite aguda inclui dor ocular intensa, redução abrupta da acuidade visual, hiperemia conjuntival importante, edema palpebral, secreção purulenta, hipópio, turvação dos meios oculares e reflexo pupilar reduzido. Em muitos casos, os sintomas surgem entre 24 e 72 horas após a cirurgia.

A gravidade do quadro exige diagnóstico e intervenção terapêutica imediata, uma vez que o atraso no tratamento está diretamente associado à piora do prognóstico visual.

3.2.4 Diagnóstico

O diagnóstico da endoftalmite é essencialmente clínico, complementado por exames laboratoriais e de imagem. A ultrassonografia modo B pode ser utilizada em casos de opacidade de meios, permitindo avaliar a presença de vitrite e descolamento de retina.

A coleta de amostras de humor aquoso e vítreo para cultura microbiológica é fundamental para identificação do agente etiológico e orientação terapêutica, embora a negatividade das culturas não exclua o diagnóstico.

3.2.5 Tratamento

O tratamento da endoftalmite baseia-se em abordagem antimicrobiana imediata e, em casos selecionados, intervenção cirúrgica. O estudo Endophthalmitis Vitrectomy Study (EVS) estabeleceu diretrizes importantes, indicando vitrectomia precoce em casos com percepção luminosa reduzida.

A terapia intravítrea com antibióticos de amplo espectro, como vancomicina e ceftazidima, constitui a base do tratamento inicial. A administração pode ser associada a corticosteroides intravítreos ou sistêmicos, dependendo da avaliação clínica.

3.2.6 Prognóstico

O prognóstico visual da endoftalmite depende diretamente da virulência do agente etiológico, da rapidez do diagnóstico e da instituição precoce do tratamento. Infecções causadas por estreptococos e bacilos Gram-negativos tendem a apresentar evolução mais grave e maior taxa de perda visual irreversível.

3.2.7 Prevenção

As medidas preventivas são fundamentais para redução da incidência de endoftalmite e incluem intervenções em múltiplas etapas do processo cirúrgico. O Caderno 9 da ANVISA destaca a importância de:

  • adequada antissepsia da superfície ocular com povidona-iodo;
  • controle rigoroso do processamento de produtos para saúde;
  • uso de materiais esterilizados e rastreáveis;
  • manutenção de ambientes controlados;
  • higienização rigorosa das mãos;
  • utilização de antibióticos intracamerais em protocolos específicos;
  • vigilância epidemiológica ativa de eventos adversos.

Essas medidas devem ser implementadas de forma integrada, considerando que a endoftalmite é um evento multifatorial e frequentemente associado à falha simultânea de múltiplas barreiras de segurança.

3.3 Síndrome Tóxica do Segmento Anterior (TASS)

A Síndrome Tóxica do Segmento Anterior (TASS) é uma complicação inflamatória aguda, não infecciosa, que ocorre após procedimentos cirúrgicos intraoculares, especialmente a cirurgia de catarata. Caracteriza-se por uma reação inflamatória estéril intensa envolvendo estruturas do segmento anterior do olho, como córnea, câmara anterior, íris e trabeculado, podendo se manifestar clinicamente de forma semelhante à endoftalmite infecciosa nas fases iniciais.

Entretanto, ao contrário da endoftalmite, a TASS não possui etiologia infecciosa, sendo causada pela introdução de substâncias tóxicas ou irritativas no interior do olho durante o ato cirúrgico. Essas substâncias podem desencadear resposta inflamatória severa, geralmente de início precoce (12 a 48 horas após o procedimento), com potencial de causar dano estrutural significativo.

3.3.1 Etiologia e fatores associados

A TASS está associada a uma ampla variedade de agentes e falhas no processamento de produtos para saúde, incluindo:

  • resíduos de detergentes enzimáticos em instrumentais mal enxaguados;
  • presença de endotoxinas bacterianas em soluções ou instrumentais;
  • uso inadequado de soluções viscoelásticas;
  • alterações no pH ou osmolaridade de soluções intraoculares;
  • presença de conservantes ou contaminantes químicos em medicamentos intracamerais;
  • falhas no processo de esterilização;
  • acúmulo de proteínas ou biofilme em canulados e instrumentos de facoemulsificação;
  • reutilização inadequada de materiais de uso único.

Além disso, fatores relacionados ao Centro de Material e Esterilização (CME), como inadequação da qualidade da água, falhas no processo de enxágue, secagem insuficiente de instrumentais e ausência de rastreabilidade adequada, estão frequentemente implicados em episódios de TASS.

3.3.2 Manifestações clínicas

Clinicamente, a TASS apresenta início abrupto, geralmente nas primeiras 12 a 48 horas após a cirurgia, com sinais e sintomas que incluem:

  • diminuição importante da acuidade visual;
  • edema corneano difuso;
  • reação inflamatória intensa na câmara anterior;
  • presença de fibrina;
  • ausência de dor intensa na maioria dos casos;
  • ausência de secreção purulenta significativa;
  • hipertensão intraocular em alguns casos.

A ausência de dor ocular intensa e a rápida manifestação pós-operatória são elementos importantes para diferenciação em relação à endoftalmite infecciosa.

3.3.3 Diagnóstico diferencial entre TASS e endoftalmite

A distinção entre TASS e endoftalmite é fundamental, uma vez que ambas as condições podem se apresentar com inflamação intraocular aguda após cirurgia de catarata, porém possuem etiologias e tratamentos completamente distintos.

CaracterísticaTASSEndoftalmite
EtiologiaNão infecciosa (tóxica/química)Infecciosa (bacteriana ou fúngica)
Início dos sintomas12–48 horas24 horas a semanas
Dor ocularGeralmente leve ou ausenteFrequente e intensa
Secreção purulentaAusentePode estar presente
HipópioPode ocorrerFrequente
CórneaEdema difuso importanteEdema variável
Cultura microbiológicaNegativaPode ser positiva
TratamentoCorticoide intensivoAntibiótico intravítreo urgente

Essa diferenciação é crítica, pois o manejo inadequado de TASS como se fosse endoftalmite pode levar ao uso desnecessário de antibióticos intravítreos, enquanto o tratamento inadequado de endoftalmite como TASS pode resultar em perda visual irreversível.

3.3.4 Relação com o Centro de Material e Esterilização (CME)

A literatura aponta o CME como um dos principais pontos críticos na prevenção da TASS. Processos inadequados de limpeza, enxágue e secagem de instrumentais oftalmológicos estão diretamente associados à ocorrência da síndrome.

A presença de resíduos de detergentes enzimáticos em cânulas de facoemulsificação e outros instrumentos delicados é uma das causas mais frequentemente descritas. Esses resíduos podem permanecer aderidos mesmo após o processo de esterilização, sendo introduzidos diretamente na câmara anterior durante o procedimento cirúrgico.

Além disso, a utilização de água de qualidade inadequada, ausência de validação dos processos de esterilização e falhas na manutenção de equipamentos automatizados contribuem significativamente para o risco de ocorrência de TASS.

3.3.5 Importância clínica e impacto em surtos

Diversos surtos de inflamação ocular pós-operatória inicialmente atribuídos à endoftalmite foram posteriormente reclassificados como TASS após investigação epidemiológica detalhada. Esses eventos reforçam a importância da vigilância ativa e da investigação sistemática de todos os casos de inflamação pós-cirúrgica.

A identificação correta da TASS tem implicações diretas na condução do surto, uma vez que o controle depende da eliminação da fonte tóxica, e não da administração de antimicrobianos. Dessa forma, a investigação deve ser direcionada para o processo de esterilização, soluções utilizadas, materiais e cadeia de reprocessamento.

A ocorrência de TASS em mutirões cirúrgicos frequentemente está associada a falhas sistêmicas, especialmente quando há aumento súbito do volume de procedimentos sem o correspondente fortalecimento da estrutura do CME e dos processos de controle de qualidade.

3.4 Surtos de endoftalmite em mutirões de catarata no Brasil: análise crítica e lições aprendidas

Os surtos de endoftalmite associados a mutirões de cirurgia de catarata no Brasil representam eventos adversos de grande impacto assistencial, social e institucional, uma vez que envolvem perda visual potencialmente irreversível em um procedimento considerado de alta segurança quando realizado sob condições adequadas. Embora a endoftalmite pós-operatória seja uma complicação rara, com incidência estimada inferior a 0,1% na maioria das séries contemporâneas, a ocorrência de surtos sugere falhas sistêmicas significativas nos processos assistenciais.

3.4.1 Panorama dos principais surtos brasileiros

A literatura e os registros de vigilância sanitária, bem como reportagens de ampla circulação nacional, descrevem episódios relevantes ocorridos em diferentes regiões do Brasil nos últimos anos, destacando-se surtos no Amapá, Rio Grande do Norte e outros eventos monitorados por órgãos de vigilância epidemiológica.

Um dos episódios de maior repercussão ocorreu no estado do Amapá, em 2023, quando um mutirão de cirurgia de catarata resultou em infecção ocular em 104 de 141 pacientes submetidos ao procedimento. A investigação identificou o fungo Fusarium spp. como agente etiológico associado ao quadro infeccioso, configurando um surto de endoftalmite fúngica de grande magnitude. Parte dos pacientes evoluiu com perda visual grave, evidenciando a gravidade do evento e sua repercussão assistencial e social.

Outro episódio relevante ocorreu no estado do Rio Grande do Norte, em 2024, quando um mutirão cirúrgico resultou em um surto de endoftalmite bacteriana associado à Enterobacter cloacae. Entre os pacientes operados, uma proporção significativa desenvolveu sinais de infecção ocular grave, com evolução para perda do globo ocular em alguns casos, exigindo intervenções cirúrgicas adicionais como vitrectomia e evisceração.

Além desses eventos, relatórios técnicos e documentos de vigilância sanitária também descrevem surtos anteriores no Brasil envolvendo diferentes microrganismos e contextos assistenciais. Entre eles, destacam-se episódios associados a falhas no processamento de produtos para saúde, incluindo contaminação de equipos de facoemulsificação, falhas de esterilização de materiais canulados e inadequações no reprocessamento em Centrais de Material e Esterilização (CME).

3.4.2 Características comuns dos surtos

A análise comparativa dos surtos brasileiros evidencia um padrão recorrente de fatores contribuintes, sugerindo que os eventos não são isolados, mas resultam de falhas sistêmicas simultâneas em múltiplas barreiras de segurança. Entre os principais fatores identificados, destacam-se:

  • aumento abrupto do volume cirúrgico sem proporcional reforço estrutural;
  • fragilidades no processamento de produtos para saúde;
  • falhas no enxágue e secagem de instrumentais oftalmológicos;
  • ausência ou fragilidade de rastreabilidade de materiais críticos;
  • inadequação na validação de processos de esterilização;
  • possível contaminação de soluções intraoculares ou materiais de uso único;
  • falhas no controle microbiológico do ambiente cirúrgico;
  • deficiência na vigilância epidemiológica pós-operatória;
  • treinamento insuficiente de equipes envolvidas no CME e centro cirúrgico.

Esses fatores são consistentes com o modelo de múltiplas barreiras de segurança descrito por James Reason, no qual eventos adversos ocorrem quando diversas camadas de proteção falham simultaneamente, permitindo que o risco alcance o paciente.

3.4.3 Relação com o Caderno 9 da ANVISA e a RDC nº 15/2012

As recomendações do Caderno 9 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) enfatizam que a prevenção de endoftalmite e TASS em procedimentos oftalmológicos depende da implementação rigorosa de práticas em todas as etapas do processo cirúrgico, incluindo preparo do paciente, antissepsia, processamento de materiais, controle ambiental e vigilância epidemiológica.

A RDC nº 15/2012, por sua vez, estabelece requisitos mínimos para o processamento de produtos para saúde, destacando a importância da limpeza adequada, da validação dos processos de esterilização, do controle de qualidade da água utilizada no CME, da capacitação contínua dos profissionais e da rastreabilidade de todos os materiais processados.

A análise dos surtos brasileiros sugere que falhas em conformidade com essas normativas estiveram presentes em diferentes graus nos eventos investigados, especialmente no que se refere ao processamento de instrumentais delicados utilizados em cirurgia oftalmológica, como cânulas de facoemulsificação, sistemas de irrigação e aspiração e materiais de uso crítico.

3.4.4 Endoftalmite versus TASS nos surtos brasileiros

Um aspecto crítico identificado na literatura refere-se à dificuldade inicial de diferenciação entre endoftalmite infecciosa e Síndrome Tóxica do Segmento Anterior (TASS), especialmente nos estágios iniciais dos surtos. Em alguns casos, pacientes apresentaram quadro inflamatório agudo pós-operatório inicialmente interpretado como infeccioso, sendo posteriormente reclassificado após investigação microbiológica e análise epidemiológica detalhada.

Essa distinção é fundamental para o manejo adequado dos surtos, uma vez que a abordagem terapêutica e as estratégias de controle são completamente distintas. Enquanto a endoftalmite exige intervenção antimicrobiana urgente, a TASS requer identificação e eliminação da fonte tóxica, geralmente relacionada a falhas no processamento de materiais.

3.4.5 Análise sob a perspectiva da segurança do paciente

Sob a ótica da segurança do paciente, os surtos de endoftalmite em mutirões de catarata não devem ser interpretados como eventos isolados ou inevitáveis, mas como manifestações de falhas sistêmicas em processos complexos de cuidado.

A aplicação do modelo do “queijo suíço” permite compreender que os eventos adversos ocorreram quando múltiplas barreiras de segurança — técnicas, organizacionais e humanas — apresentaram falhas simultâneas. Nesse contexto, os mutirões cirúrgicos, embora essenciais para ampliação do acesso à saúde, tornam-se ambientes de maior vulnerabilidade quando não acompanhados de infraestrutura proporcional, governança clínica robusta e sistemas eficazes de controle de qualidade.

Assim, a ocorrência desses surtos reforça a necessidade de fortalecimento da cultura de segurança do paciente, implementação de protocolos rigorosos baseados em evidências e vigilância ativa contínua, de modo a garantir que a ampliação do acesso cirúrgico não comprometa a qualidade assistencial.

3.5 Discussão

A análise integrada dos surtos de endoftalmite associados a mutirões de cirurgia de catarata no Brasil evidencia um padrão consistente de falhas sistêmicas que transcendem eventos isolados e apontam para fragilidades estruturais nos processos assistenciais, especialmente no que se refere ao processamento de produtos para saúde, à governança clínica e à vigilância epidemiológica.

Embora a cirurgia de catarata seja amplamente reconhecida como um procedimento seguro, com altas taxas de sucesso e baixa incidência de complicações infecciosas, os surtos descritos demonstram que o risco não está associado ao procedimento em si, mas às condições sob as quais ele é realizado. Em todos os eventos analisados, observou-se a convergência de múltiplos fatores contribuintes, incluindo aumento abrupto do volume cirúrgico, fragilidades no Centro de Material e Esterilização (CME), falhas de rastreabilidade, possíveis inadequações no processamento de instrumentais críticos e deficiência nos sistemas de vigilância pós-operatória.

Sob a perspectiva da segurança do paciente, tais eventos podem ser compreendidos à luz do modelo do “queijo suíço” proposto por James Reason, no qual a ocorrência de um evento adverso resulta da alinhamento de múltiplas falhas em diferentes camadas de defesa do sistema. Nesse contexto, os mutirões cirúrgicos, quando não adequadamente estruturados, podem expor vulnerabilidades organizacionais que permanecem latentes em condições de baixa demanda assistencial.

A literatura e os documentos normativos, especialmente o Caderno 9 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e a RDC nº 15/2012, reforçam que a prevenção de endoftalmite e da Síndrome Tóxica do Segmento Anterior (TASS) depende da implementação rigorosa de processos validados em todas as etapas do ciclo cirúrgico. Isso inclui desde a antissepsia adequada da superfície ocular até o reprocessamento criterioso de materiais oftalmológicos delicados, como cânulas de facoemulsificação e sistemas de irrigação e aspiração.

Entretanto, a análise dos surtos brasileiros sugere que, em situações de alta demanda assistencial, essas barreiras podem ser fragilizadas, especialmente quando não há planejamento proporcional de recursos humanos, infraestrutura e sistemas de controle de qualidade. Além disso, observa-se que a ausência de cultura consolidada de segurança do paciente e a subnotificação de eventos adversos podem dificultar a detecção precoce de falhas sistêmicas, contribuindo para a magnitude dos surtos.

Outro ponto relevante diz respeito à dificuldade inicial de diferenciação entre endoftalmite infecciosa e TASS, o que pode impactar diretamente na condução clínica e na investigação epidemiológica. A semelhança clínica entre ambas as condições reforça a importância de protocolos diagnósticos bem estabelecidos e de comunicação eficiente entre equipes assistenciais, controle de infecção e vigilância sanitária.

Assim, os surtos analisados não devem ser interpretados como falhas individuais, mas como manifestações de fragilidades organizacionais que se tornam evidentes sob condições de estresse do sistema. A superação desses desafios requer não apenas adesão a normas técnicas, mas também o fortalecimento da governança clínica, da cultura de segurança e da integração entre os diferentes setores envolvidos no cuidado cirúrgico.

4 CONCLUSÃO

Os casos de endoftalmite associados a mutirões de cirurgia de catarata no Brasil demonstram que, embora a ampliação do acesso à cirurgia represente um avanço significativo em termos de saúde pública, a segurança do paciente deve permanecer como elemento central de qualquer estratégia assistencial.

A análise dos surtos evidencia que tais eventos não resultam de falhas isoladas, mas de uma combinação de fatores sistêmicos, incluindo fragilidades no processamento de produtos para saúde, inadequações no planejamento dos mutirões, falhas de rastreabilidade, ausência de monitoramento efetivo e insuficiência de barreiras de segurança ao longo do processo cirúrgico.

Nesse contexto, a aplicação rigorosa das recomendações da ANVISA, especialmente do Caderno 9, da RDC nº 15/2012 e das diretrizes de segurança do paciente, bem como das orientações do Conselho Federal de Medicina, é fundamental para a prevenção de eventos adversos graves. Além disso, a implementação de sistemas robustos de vigilância epidemiológica e cultura institucional de segurança é essencial para a detecção precoce de riscos e prevenção de surtos.

Conclui-se que os mutirões de catarata permanecem como estratégia válida e necessária para redução da cegueira evitável, desde que sejam realizados com planejamento adequado, infraestrutura compatível, equipes capacitadas e processos rigorosamente validados. O maior aprendizado dos surtos analisados é que a ampliação do acesso à saúde não pode ocorrer em detrimento da qualidade assistencial, sendo indispensável o equilíbrio entre produtividade e segurança.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Caderno 9 – Medidas de prevenção de endoftalmites e da Síndrome Tóxica do Segmento Anterior relacionadas a procedimentos oftalmológicos invasivos. Brasília: ANVISA, 2017.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). RDC nº 15, de 15 de março de 2012. Dispõe sobre requisitos de boas práticas para o processamento de produtos para saúde.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). RDC nº 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Diretrizes e orientações para realização de mutirões cirúrgicos. Brasília: CFM, 2023.

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Laiz Gomes Costa

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