O paradoxo na gestão: quanto mais tecnologia, menores as margens!

A oftalmologia e o setor da saúde no Brasil, vivem um dos momentos mais extraordinários de sua história. Nunca tivemos tanta tecnologia à disposição dos médicos. Nunca fomos capazes de diagnosticar tão cedo, tratar com tanta precisão e devolver qualidade de vida a tantos pacientes.

Equipamentos cada vez mais sofisticados, inteligência artificial, exames de imagem de altíssima resolução, novos lasers, microscópios cirúrgicos, lentes intraoculares de última geração, medicamentos inovadores e técnicas minimamente invasivas transformaram completamente o setor como um todo.

Mas existe um paradoxo que precisa ser discutido. Enquanto a tecnologia avança, o resultado operacional de quem presta o cuidado diminui. A desconexão entre o custo real e o pagamento já começa a mostrar sinais de que estamos tentando retardar o que já é obvio para todos.

E talvez essa seja uma das discussões mais importantes que os gestores da saúde precisarão enfrentar nos próximos anos. Na oftalmologia, acompanhar a evolução tecnológica deixou de ser um diferencial e tornou-se uma necessidade. Um serviço que deseja oferecer medicina de excelência precisa investir continuamente. São equipamentos que custam centenas de milhares — e muitas vezes milhões — de reais, além de contratos de manutenção, atualização tecnológica, softwares, insumos, medicamentos e equipes altamente especializadas.

O problema como já dito é que  essa evolução dos custos não encontra correspondência na remuneração dos serviços. De um lado, temos uma medicina cada vez mais tecnológica, sofisticada e cara. Do outro, uma remuneração que frequentemente não acompanha nem mesmo a inflação real dos custos assistenciais.  A conta simplesmente não fecha.

Na saúde suplementar, essa equação tornou-se ainda mais preocupante. A relação entre operadoras e prestadores precisa ser urgentemente rediscutida. Durante anos, hospitais, clínicas e centros especializados foram pressionados a buscar eficiência, reduzir desperdícios, melhorar processos e aumentar produtividade. E fizeram isso. Profissionalizaram suas gestões, implantaram indicadores, digitalizaram processos, investiram em qualidade, segurança do paciente, “compliance” e tecnologia.

Mas existe um limite para a eficiência. Não é possível exigir indefinidamente que o prestador faça mais, entregue mais qualidade, incorpore mais tecnologia e assuma mais responsabilidades recebendo proporcionalmente menos. Quando a remuneração não acompanha o custo real da assistência, aquilo que inicialmente parece ser eficiência começa a se transformar em estrangulamento econômico.

E esse é um risco para todo o sistema, porque nenhuma empresa de saúde consegue sustentar qualidade assistencial sem sustentabilidade financeira. Precisamos abandonar a ideia de que margem é uma palavra incompatível com saúde. Resultado operacional não é apenas lucro. É o que permite reinvestir em tecnologia, renovar equipamentos, contratar profissionais qualificados, treinar equipes, melhorar estruturas e continuar oferecendo medicina de qualidade.

Sem resultado, não existe investimento. Sem investimento, não existe inovação. E, sem inovação, inevitavelmente haverá impacto na assistência ao paciente.

Na oftalmologia, esse fenômeno é particularmente evidente. A velocidade da inovação tecnológica é extraordinária. Equipamentos adquiridos há poucos anos rapidamente precisam ser atualizados ou substituídos. Novas tecnologias surgem constantemente e passam a integrar o padrão esperado de diagnóstico e tratamento. Observamos isso também nos outros setores da saúde.

Mas quem financia essa evolução, é o próprio prestador. O hospital investe. A clínica compra o equipamento. O prestador assume o financiamento. contrata a equipe, mantém a estrutura, paga a manutenção, compra os insumos, absorve os aumentos salariais e os reajustes de fornecedores. Todavia, no outro espectro, negocia centavos em tabelas que permanecem praticamente congeladas, quando não há diminuição com a desculpa: “seu concorrente está aceitando este valor”. E aí! A pergunta grita quase todas as semanas nas reuniões financeiras em de nossos negócios.  Esse modelo é sustentável?

É preciso reconhecer que estamos diante de um problema estrutural, e não apenas de um problema de gestão. Durante muito tempo, quando os resultados dos prestadores diminuíam, a resposta parecia sempre a mesma: precisamos ser mais eficientes. Precisamos diminuir o desperdício. Na opinião deste que vos escreve, talvez tenha chegado o momento de fazer uma pergunta diferente:

Até onde é possível ganhar eficiência quando a remuneração não acompanha o custo da medicina que queremos oferecer?

Essa reflexão precisa envolver operadoras, hospitais, clínicas, médicos, fornecedores, órgãos reguladores e toda a cadeia da saúde suplementar. Não se trata de criar uma disputa entre operadoras e prestadores. Trata-se de reconhecer uma interdependência.

Não existe saúde suplementar forte com operadoras financeiramente frágeis. Mas também não existe saúde suplementar sustentável com hospitais e clínicas operando permanentemente no limite de suas margens. Se um elo da cadeia for sistematicamente comprimido, em algum momento todo o sistema sentirá as consequências.

Precisamos construir relações mais equilibradas, transparentes e orientadas ao longo prazo. Modelos de remuneração precisam considerar complexidade, qualidade, desfecho e, fundamentalmente, o custo real da assistência, não o custo de uma “folha de sala”.

Podemos discutir “Value-Based Health Care”, “bundledpayments”, remuneração por performance ou qualquer outro modelo inovador. Todas essas discussões são importantes. Mas nenhuma inovação remuneratória resolverá o problema se ignorarmos uma realidade elementar: “alguém precisa pagar pela medicina que queremos oferecer”. Mas acima de tudo temos que ter a consciência e assumir, de que o modelo atual da saúde suplementar está falido.

Queremos inteligência artificial, equipamentos de última geração, diagnósticos mais precoces, cirurgias mais seguras, melhores desfechos, profissionais altamente qualificados, excelência. Mas para tudo isso temos que lembrar que isso tem custo.

A grande pergunta que o setor precisa responder é quem financiará essa evolução. Porque estamos chegando a um ponto perigoso, em que a tecnologia da medicina do futuro está chegando cada vez mais rápido, enquanto a remuneração dos prestadores parece permanecer presa ao passado.

Talvez o maior desafio da oftalmologia nos próximos anos não seja desenvolver novas tecnologias. Elas certamente continuarão surgindo. O verdadeiro desafio será construir um modelo econômico capaz de sustentá-las.

Precisamos discutir menos apenas quanto custa um procedimento e começar a discutir quanto custa manter um sistema capaz de realizar esse procedimento com qualidade, segurança e tecnologia.

Porque, se continuarmos exigindo uma medicina cada vez melhor dentro de um modelo econômico que remunera cada vez pior, chegará o momento em que essa equação deixará definitivamente de ser sustentável.

E quando isso acontecer, o problema não será apenas dos hospitais, das clínicas, dos médicos ou dos planos ou operadoras de saúde. Será de todos nós, e, principalmente, do paciente.

Texto por Luciano Zuffo – Sócio-Fundador do Grupo São Pietro na São Pietro Hospitais e Clinicas

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