O futuro do trabalho também passa pela saúde: por que a telemedicina entrou na agenda estratégica do RH

Por Josiane Azolin

Imagine começar o dia com uma reunião em São Paulo, conversar com um fornecedor no Paraguai, participar de um treinamento conduzido por alguém em outro país e, no intervalo entre duas agendas, consultar um médico — sem sair de onde você está. Há alguns anos, esse cenário pareceria uma previsão sobre o futuro.

Hoje, é simplesmente terça-feira.

A transformação do trabalho não está acontecendo apenas na forma como produzimos, nos comunicamos ou utilizamos Inteligência Artificial. Ela também está mudando a maneira como as pessoas aprendem, se relacionam, cuidam da saúde e esperam ser cuidadas pelas organizações.

E é justamente nesse ponto que dois movimentos aparentemente distintos começam a se encontrar: o Futuro do Trabalho e a telemedicina. Para o RH, essa conexão merece atenção.

O futuro do trabalho não é sobre tecnologia. É sobre pessoas usando tecnologia.

Quando falamos em Futuro do Trabalho, é quase automático pensar em Inteligência Artificial, automação, trabalho híbrido e novas profissões.

Mas existe uma transformação mais profunda acontecendo.

O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, estima que as transformações estruturais do mercado poderão afetar cerca de 22% dos empregos atuais até 2030. A projeção considera aproximadamente 170 milhões de novos postos de trabalho e 92 milhões de funções deslocadas, resultando em saldo positivo de 78 milhões de empregos.

Talvez o dado mais importante para quem trabalha com pessoas seja outro: os empregadores estimam que 39% das competências essenciais dos profissionais deverão mudar até 2030. Pense por alguns segundos no que isso significa.

Não estamos falando apenas de aprender uma nova ferramenta.Estamos falando de profissionais que precisarão aprender, desaprender e reaprender continuamente enquanto administram carreira, metas, família, informação em excesso, novas tecnologias e mudanças organizacionais cada vez mais rápidas.

Por isso, discutir o futuro do trabalho sem discutir saúde, bem-estar e sustentabilidade humana é enxergar apenas metade da transformação.

Quando o trabalho atravessa fronteiras, o cuidado também precisa atravessar

O trabalho deixou de depender exclusivamente de um espaço físico. Times distribuídos, modelos híbridos e tecnologias digitais ampliaram a possibilidade de trabalhar de diferentes lugares. Ao mesmo tempo, essa flexibilidade trouxe novas questões para a gestão de pessoas.

Uma revisão sistemática publicada em 2022 sobre teletrabalho e saúde encontrou evidências ainda limitadas e heterogêneas sobre seus impactos, reforçando que a relação entre trabalho remoto, bem-estar, estresse, burnout e saúde depende de diferentes condições de trabalho.

Uma revisão longitudinal mais recente, publicada em 2026 na BMC Public Health, também destaca essa dualidade: o teletrabalho pode favorecer autonomia e equilíbrio entre vida profissional e pessoal, mas pode estar associado a desafios como isolamento social, carga de trabalho e fronteiras menos claras entre trabalho e vida privada.

É aqui que a discussão sobre telemedicina ganha uma dimensão interessante para o RH. Se o trabalho ficou mais digital, por que o acesso inicial ao cuidado com a saúde permaneceria exclusivamente físico?

Telemedicina: de benefício adicional a componente da experiência do colaborador

A Organização Mundial da Saúde vem reconhecendo benefícios potenciais da telemedicina, entre eles redução de tempo de espera, melhoria no acompanhamento de condições de saúde, maior acessibilidade aos serviços e redução de determinados custos. Ao mesmo tempo, ressalta que sua implantação exige estrutura e qualidade.

No Brasil, a telessaúde possui respaldo legal pela Lei nº 14.510/2022, que autorizou e disciplinou sua prática em todo o território nacional, estabelecendo princípios como autonomia profissional, consentimento do paciente, confidencialidade, segurança e responsabilidade digital.

No campo médico, a Resolução CFM nº 2.314/2022 regulamenta a telemedicina e prevê modalidades como teleconsulta, teleinterconsulta, telediagnóstico, telemonitoramento e teletriagem. A própria regulamentação preserva a autonomia médica para indicar atendimento presencial quando necessário. Ou seja: telemedicina não significa substituir indiscriminadamente o presencial. Significa ampliar possibilidades de acesso ao cuidado. E essa diferença é fundamental.

Mas onde o RH entra nessa conversa?

Imagine um colaborador que começa a apresentar um sintoma durante a semana. No modelo tradicional, dependendo da situação, ele precisa encontrar atendimento disponível, deslocar-se, enfrentar espera e reorganizar parte da rotina.

Agora imagine que, quando clinicamente adequado, exista uma porta digital de entrada para orientação e avaliação profissional. O valor percebido pelo colaborador não está apenas na tecnologia. Está na mensagem implícita: “Quando eu precisar de cuidado, existe um caminho acessível.”

Essa percepção conversa diretamente com Employee Experience. Pesquisas sobre intervenções digitais em saúde no ambiente de trabalho já apontam resultados promissores, embora não definitivos. Uma revisão sistemática envolvendo 22 estudos randomizados encontrou melhorias em diferentes desfechos, incluindo saúde mental, sono, atividade física e comportamento sedentário, mas destacou a heterogeneidade das evidências e os desafios de engajamento.

Outra revisão e meta-análise, com 28 estudos e mais de 8 mil trabalhadores, encontrou efeitos pequenos, porém significativos, sobre engajamento e produtividade em intervenções digitais de saúde, enquanto os resultados para absenteísmo e presenteísmo foram menos conclusivos. Esse cuidado com a interpretação dos dados é importante.

Telemedicina não deve ser vendida pelo RH como promessa automática de redução de afastamentos ou aumento de produtividade. Ela pode ser muito mais relevante quando inserida em uma estratégia ampla de acesso à saúde, prevenção, experiência do colaborador e gestão inteligente de benefícios. O RH do futuro terá que conectar dados que hoje ainda estão separados

Aqui está, talvez, a maior mudança.Durante muito tempo, benefícios foram administrados como uma operação: contratar fornecedor, incluir vidas, excluir vidas, controlar custos e negociar reajustes. O RH estratégico precisa ir além. Precisa começar a perguntar:

As pessoas estão utilizando o benefício? Ele resolve problemas reais? Facilita o acesso? Existe adesão à telemedicina? Há recorrência de determinadas demandas? O modelo ajuda diferentes localidades? Como está a experiência do colaborador? E qual é a relação entre investimento, utilização e percepção de valor?

É a transição do RH que administra benefícios para o RH que administra uma estratégia de saúde populacional e experiência.

Isso também exige responsabilidade. Dados médicos são sensíveis. A legislação brasileira estabelece princípios de confidencialidade, consentimento e proteção das informações, e a regulamentação do CFM prevê requisitos para registro, segurança e preservação dos dados utilizados na telemedicina.

Portanto, People Analytics aplicado à saúde não significa entregar diagnósticos individuais ao RH. Significa trabalhar, dentro dos limites legais e éticos, com indicadores agregados, tendências, utilização e informações adequadamente protegidas, capazes de apoiar decisões sem invadir a privacidade do trabalhador. Tecnologia aproxima. Cultura determina se ela gera valor.

Existe uma frase que deveríamos levar para qualquer projeto de transformação digital: digitalizar um processo ruim não o transforma automaticamente em um processo bom.

Isso vale para recrutamento, avaliação de desempenho, treinamento — e também para saúde. Não basta contratar uma plataforma de telemedicina e enviar um comunicado dizendo: “Novo benefício disponível”. É necessário comunicação, educação, confiança, facilidade de acesso e clareza sobre quando e como utilizar o serviço. Uma tecnologia só se transforma em experiência quando as pessoas percebem valor nela. E esse talvez seja um dos novos papéis do RH: traduzir tecnologia em experiência humana.

Afinal, qual será o verdadeiro benefício competitivo?

O futuro do trabalho provavelmente será mais digital, mais conectado e mais orientado por dados. O World Economic Forum aponta que a ampliação do acesso digital está entre as tendências com maior potencial de transformação dos negócios até 2030. Mas existe um paradoxo interessante. Quanto mais tecnológico se torna o trabalho, mais importante se torna aquilo que é essencialmente humano.

Confiança. Saúde. Segurança. Pertencimento. Liderança. Relações.

Talvez, daqui a alguns anos, não perguntemos mais se telemedicina é um benefício inovador. Assim como aconteceu com tantas outras tecnologias, ela poderá simplesmente fazer parte da infraestrutura cotidiana de cuidado.

A pergunta para o RH, portanto, não deveria ser apenas:

“Devemos oferecer telemedicina?”

Talvez a pergunta mais estratégica seja:

“Que experiência de cuidado queremos construir para as pessoas que sustentam o nosso negócio?”

Porque o futuro do trabalho não será definido somente pelas tecnologias que as empresas conseguirem implementar. Será definido, principalmente, pela capacidade que terão de usar tecnologia sem perder de vista as pessoas.

E talvez seja exatamente aí que esteja o RH que queremos construir para o futuro.

Referências utilizadas

World Economic Forum. The Future of Jobs Report 2025. Publicado em janeiro de 2025.

World Health Organization – WHO/Europe. WHO develops guidance to improve telemedicine services. 2024.

International Labour Organization – ILO. Working anytime, anywhere: The effects on the world of work e Working from home: From invisibility to decent work.

Lunde, L. K. et al. The relationship between telework from home and employee health: a systematic review. BMC Public Health, 2022.

Parent-Lamarche, A. et al. Teleworking and its impact on health and well-being: a systematic review of longitudinal studies considering the psychosocial work environment (2005–2024). BMC Public Health, 2026.

Howarth, A. et al. The impact of digital health interventions on health-related outcomes in the workplace: A systematic review.

Carolan, S. et al. / estudos de mHealth no trabalho. Revisão sistemática e meta-análise sobre intervenções digitais, engajamento e produtividade de trabalhadores. Brasil. Lei nº 14.510/2022. Regulamenta a telessaúde no território nacional.

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.314/2022. Regulamenta a telemedicina no Brasil.

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