O desafio de desenvolver o maior patrimônio das instituições oftalmológicas.
A oftalmologia vive uma transformação acelerada. Novos equipamentos, inteligência artificial, técnicas cirúrgicas, acreditação e indicadores de desempenho passaram a fazer parte da rotina de clínicas e hospitais.
Investimos em tecnologia, modernizamos estruturas e aperfeiçoamos processos. Mas existe um patrimônio que nenhuma instituição consegue comprar pronto: as pessoas capazes de liderar tudo isso.
É comum que médicos tecnicamente excelentes, respeitados pelos colegas e comprometidos com a instituição sejam convidados a assumir posições de liderança. Mas existe uma questão pouco discutida: ser um excelente médico não nos prepara, necessariamente, para sermos excelentes líderes.
Durante nossa formação aprendemos a diagnosticar, decidir e assumir responsabilidades. Quando passamos a liderar, entretanto, precisamos desenvolver outras competências: ouvir, comunicar, delegar, administrar conflitos, oferecer feedback, engajar pessoas e tomar decisões que considerem não apenas o indivíduo, mas todo o sistema.
E poucos médicos foram preparados para essa transição.
O maior patrimônio não está no centro cirúrgico
Uma clínica pode adquirir o melhor microscópio, o OCT mais moderno ou incorporar inteligência artificial. Tecnologia pode ser comprada.
Cultura, confiança e engajamento precisam ser construídos.
São pessoas que acolhem o paciente, realizam exames, conferem a lateralidade de uma cirurgia, identificam uma possível falha e decidem se terão segurança para comunicar quando percebem que algo não está certo.
Por isso, existe uma pergunta que considero importante para qualquer gestor:
Quanto sua instituição investe em tecnologia e quanto investe no desenvolvimento das pessoas que irão liderá-la?
Não se trata de escolher entre um ou outro. Instituições de excelência precisam dos dois.
Ter um cargo não significa exercer liderança
O título de diretor clínico concede autoridade formal. A confiança das equipes precisa ser conquistada.
E ela nasce, principalmente, da coerência entre aquilo que a liderança defende e aquilo que pratica.
Se uma instituição estimula a notificação de eventos adversos, mas procura culpados sempre que algo acontece, rapidamente as pessoas aprendem a permanecer em silêncio. Por outro lado, quando existe escuta, responsabilidade compartilhada e aprendizado com as falhas, cria-se um ambiente no qual alguém se sente seguro para dizer:
“Tem alguma coisa errada aqui.”
Na oftalmologia, uma frase aparentemente tão simples pode evitar um erro de lateralidade, o implante de uma lente inadequada ou outra falha potencialmente grave.
Por isso, desenvolver competências como comunicação assertiva, escuta ativa, gestão de conflitos, inteligência emocional e capacidade de oferecer e receber feedback não significa apenas investir no relacionamento das equipes.
Também significa investir em segurança do paciente e qualidade assistencial.
Desenvolver líderes também é estratégia
O crescimento de uma instituição não depende apenas da qualidade de seus equipamentos ou da eficiência dos seus processos. Depende também da capacidade de formar pessoas preparadas para conduzir mudanças, tomar decisões difíceis, engajar equipes e preservar os valores institucionais diante dos desafios cotidianos.
A liderança médica contemporânea exige, portanto, uma combinação de conhecimento técnico e competências que tradicionalmente receberam pouco espaço durante a formação médica.
Reconhecer essa lacuna é o primeiro passo. O próximo é compreender que liderança pode ser aprendida, desenvolvida e aperfeiçoada ao longo da carreira.
Talvez, portanto, um dos investimentos mais estratégicos da oftalmologia nos próximos anos não esteja somente em novas tecnologias, mas na preparação das pessoas responsáveis por conduzi-las.
E deixo uma reflexão aos médicos e gestores:
Estamos preparando nossos excelentes especialistas para se tornarem também excelentes líderes?
Porque equipamentos transformam procedimentos.
Processos transformam resultados.
Mas líderes transformam pessoas e pessoas transformam instituições.
Dra. Silmara Loes