A Oftalmologia no Sistema Único de Saúde (SUS) ocupa um papel estratégico dentro da assistência especializada no Brasil, considerando o impacto direto da saúde ocular na qualidade de vida, produtividade e inclusão social da população.
Em um país com dimensões continentais e marcadas desigualdades regionais, o SUS se consolida como o principal provedor de cuidados oftalmológicos para milhões de brasileiros, abrangendo desde ações preventivas até procedimentos de alta complexidade, como cirurgias de catarata, tratamento de glaucoma e doenças da retina.
Por outro lado, os desafios são expressivos. A alta demanda reprimida por consultas e cirurgias, especialmente de catarata, ainda é uma realidade em diversas regiões. A distribuição desigual de profissionais e serviços especializados, concentrados em grandes centros urbanos, dificulta o acesso em áreas mais remotas. Questões relacionadas ao financiamento também impactam diretamente a sustentabilidade da assistência, uma vez que os valores de remuneração de procedimentos nem sempre acompanham os custos operacionais e tecnológicos. Soma-se a isso a complexidade da gestão do acesso — envolvendo regulação, filas e priorização clínica — além de gargalos operacionais, como absenteísmo de pacientes, limitações de infraestrutura e necessidade constante de qualificação das equipes.
Apesar dessas dificuldades, os resultados que podem ser alcançados são altamente relevantes quando há organização e gestão eficiente.
A Oftalmologia é uma das especialidades com maior potencial de resolutividade no SUS, sobretudo em condições como a catarata, cuja cirurgia apresenta alto impacto na recuperação funcional do paciente com custo relativamente baixo. Programas bem estruturados conseguem reduzir significativamente a cegueira evitável, melhorar indicadores de saúde pública e gerar economia indireta ao sistema, ao diminuir afastamentos do trabalho e dependência social. Além disso, iniciativas baseadas em linhas de cuidado bem definidas, integração entre níveis assistenciais e uso de dados para tomada de decisão tendem a aumentar a produtividade e a qualidade dos serviços.
Entre as principais oportunidades destaca-se a cirurgia de catarata, considerada um dos procedimentos mais realizados pelo SUS. A grande demanda existente e os esforços governamentais para redução das filas de espera criam espaço para o fortalecimento de hospitais especializados, centros cirúrgicos e parcerias com instituições filantrópicas e privadas.
Outra importante oportunidade está na expansão do atendimento de retina, glaucoma, córnea e transplantes de córnea, áreas de maior complexidade e que exigem equipes especializadas e tecnologia avançada. Investimentos recentes em equipamentos e modernização de centros cirúrgicos têm permitido ampliar a capacidade assistencial nessas subespecialidades.
Os programas federais voltados à redução das filas de atendimento, como o Agora Tem Especialistas, também representam uma oportunidade significativa. A iniciativa contempla mutirões, ampliação dos horários de atendimento, utilização de unidades móveis de oftalmologia e integração entre hospitais públicos, privados e filantrópicos, aumentando a oferta de serviços para a população.
Há ainda oportunidades relacionadas à telemedicina, rastreamento de doenças oculares e atenção preventiva, especialmente para pacientes diabéticos, idosos e escolares. O diagnóstico precoce de doenças como retinopatia diabética, glaucoma e degeneração macular pode reduzir significativamente os casos de cegueira evitável e melhorar a qualidade de vida da população.
Em síntese, a Oftalmologia no SUS apresenta um cenário desafiador, porém repleto de oportunidades para inovação e melhoria contínua.
Com planejamento estratégico, investimento em tecnologia, fortalecimento da rede assistencial e foco na eficiência operacional, é possível ampliar o acesso, reduzir desigualdades e alcançar resultados expressivos na promoção da saúde ocular da população brasileira.
Jonas Moreira