A receita não inicia no faturamento.

Muitos hospitais, clínicas e até mesmo profissionais ainda têm a falsa impressão de que a receita começa no setor de faturamento e que, ao gerar uma conta, a instituição está automaticamente gerando receita e contribuindo para sua sustentabilidade financeira.

Engana-se quem pensa dessa forma.

Mas, afinal, como assim?

Tenho apresentado, em artigos anteriores, o cenário cada vez mais desafiador da saúde suplementar: glosas iniciais elevadas, prazos de pagamento prolongados, reajustes muitas vezes insuficientes ou nulos entre operadoras e prestadores e, especificamente na oftalmologia, o fenômeno crescente do empacotamento de procedimentos, com pacotes que incorporam itens e custos relevantes para a operação.

Entretanto, todos esses desafios podem se tornar ainda mais prejudiciais quando não existe uma organização institucional estruturada, baseada em padronização, integração e responsabilidade compartilhada ao longo de todo o ciclo da receita.

A receita precisa percorrer uma verdadeira trilha, na qual cada etapa esteja conectada à seguinte. Desde o atendimento, autorização e execução do procedimento até o registro correto das informações, auditoria, faturamento, envio da conta, recebimento e recurso de eventuais glosas.

Quando essa trilha apresenta falhas, surgem erros, perdas, retrabalhos, atrasos e, principalmente, perdas financeiras.

Em um cenário de glosas elevadas e prazos de pagamento cada vez mais longos, uma conta corretamente estruturada, apresentada com agilidade e dentro das regras estabelecidas, representa uma oportunidade de antecipar o recebimento e reduzir perdas para a instituição.

É claro que não é simples. O ambiente hospitalar envolve múltiplos setores, profissionais, sistemas, regras contratuais e processos que precisam funcionar de forma coordenada e fluida.

Mas não é impossível.

Algumas iniciativas podem contribuir significativamente para fortalecer esse ciclo:

• Promover a integração entre os gestores de todas as áreas que participam do ciclo da receita;

• Padronizar, criar e divulgar POPs, manuais e instruções de trabalho;

• Realizar a manutenção periódica das regras de negócio parametrizadas no sistema;

• Criar barreiras sistêmicas capazes de prevenir erros antes que eles cheguem ao faturamento;

• Promover encontros entre as lideranças, fortalecendo a conscientização sobre o impacto de cada etapa;

• Investir em treinamento contínuo e atualização dos colaboradores.

E existe um ponto fundamental: todos os profissionais envolvidos no ciclo da receita precisam compreender a importância do seu papel.

Quando cada área entende que sua atividade interfere diretamente na etapa seguinte, a responsabilidade deixa de estar concentrada exclusivamente no faturamento e passa a ser compartilhada por toda a instituição.

Afinal, a receita não inicia no faturamento.Ela começa muito antes.

Começa no processo, na informação correta, na autorização adequada, no atendimento realizado conforme as regras, no registro preciso e na integração entre as áreas.

O faturamento é a finalização dessa trilha.

A sustentabilidade financeira, por sua vez, é resultado do trabalho de todo o ciclo da receita.

E fica a reflexão:

Sua instituição está integrada, padronizada, treinada e preparada para enfrentar o cenário cada vez mais desafiador da saúde suplementar?

Artigo escrito por Ana Paula Reis, especialista e consultora em Contas Médicas.

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