Os INVISÍVEIS na Sala de Espera

Neurociência da Visão | Como o sistema visual atua como a última barreira antes da doença mental

30 de abril de 2026

No artigo anterior de número 228, propus uma distinção que parece simples, mas muda completamente a forma como entendemos o que acontece dentro de um consultório: vista não é visão.

Expliquei como é possível ter um exame 20/20, que define que o “olho passou no exame” e, ainda assim, conviver com desconfortos visuais reais, persistentes e muitas vezes incapacitantes. Falei sobre o esforço invisível que o cérebro faz quando o sistema visual perde eficiência, mesmo sem sinais evidentes nos exames tradicionais.

Mas essa reflexão abre uma questão ainda mais profunda.

Se esses sintomas existem, se são frequentes e se não aparecem nos exames de rotina, o que acontece com esses pacientes dentro do sistema de saúde?

É sobre eles, “os pacientes invisíveis” que enxergam bem nos testes clássicos de vista, mas não conseguem viver bem com a própria visão, que trata este próximo artigo.

Todos os dias, em consultórios ao redor do mundo, um mesmo roteiro se repete em silêncio. O paciente chega com queixas reais — a luz incomoda, a leitura esgota, o supermercado desoriente, o carro enjoa, o mundo parece fugir. O médico ouve, examina, e entrega o resultado: biomicroscopia normal, refração normal, campo visual normal. Visão 20/20.

O paciente agradece, sai aliviado por não ter nada grave e, por outro lado, decepcionado porque ainda não tem resposta. Depois de um tempo, volta. Ou vai procurar outro médico. O ciclo recomeça.

Esse paciente não é uma exceção clínica. É uma realidade sistematicamente ignorada.

Os números que a medicina ainda não vê

Um estudo publicado em 2022 no Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology, uma das revistas mais respeitadas da especialidade, ouviu 119 oftalmologistas no Reino Unido sobre sua experiência com sintomas visuais funcionais. Os dados são incômodos.

Pelo menos 3% de todas as novas consultas envolvem pacientes com sintomas visuais sem causa orgânica demonstrável. Em serviços especializados, esse número chega a 12%. Dois terços dos médicos relataram não ter recebido treinamento adequado para lidar com essas condições. Metade admitiu não se sentir confortável sequer para discutir o diagnóstico com o paciente. Um terço afirmou que, se pudesse escolher, preferiria não atendê-los.

O desfecho? Um terço desses pacientes permanece com incapacidade severa. Sintomas reais. Sofrimento real. E nenhum diagnóstico que explique por quê.

A “via crucis” dos encaminhamentos

Sem resposta na oftalmologia, esses pacientes entram em um circuito que os exaure sem iluminá-los. São encaminhados para a neurologia. Depois para a psiquiatria, já que a ansiedade, a fotofobia, a enxaqueca e o enjoo precisam de algum rótulo. Depois de volta ao clínico geral. Novos exames. Novas consultas. Nenhuma resposta nova.

Em alguns casos, são chamados, informalmente, de pacientes difíceis. Ansiosos. Criadores de caso. Hipocondríacos com exames normais.

Mas o problema não está neles. Está no tamanho do mapa que usamos para descrever o território.

O que a visão é além do Teste de Snellen

A oftalmologia tradicional foi construída em torno do exame de acuidade visual. Da visão 20-20. Mas visão vai além da formação de imagens. E nem tudo pode ser medido com clareza e inscrito em laudos.

O que ficou de fora dessa pergunta é enorme.

A visão não é apenas formação de imagem. É um sistema regulatório expandido que envolve processamento subcortical, estabilidade de fixação, movimentos sacádicos, sensibilidade ao contraste, respostas à composição espectral da luz, modulação circadiana, integração sensorial. Perturbações nesse sistema — os chamados Distúrbios Neurovisuais (DNVs) — não aparecem nos exames de rotina. Não porque não existam, mas porque os exames de rotina não foram desenhados para detectá-los.

Esses pacientes são aprovados no exame do olho, mas a visão — a visão como experiência, como regulação, como substrato do pensamento e da atenção — está comprometida.

A pergunta que muda o diagnóstico

A maioria desses pacientes nunca foi perguntada sobre o que realmente vivência. Como é a sensação de espaço e movimento? A leitura cansa? A luz artificial incomoda mais do que deveria? O computador provoca desconforto? A multidão desoriente?

Não é uma pergunta difícil. Mas exige um médico que saiba que ela existe e, sobretudo, entenda o que fazer com a resposta.

Os Distúrbios Neurovisuais (DNVs) são frequentes. São incapacitantes. Têm diagnóstico. Têm tratamento. O que falta, na maioria dos casos, não é tecnologia. É a pergunta certa, feita no momento certo, por alguém treinado para reconhecer o que ela revela.

Os pacientes invisíveis continuarão chegando às salas de espera.Com exames normais e visão e vidas disfuncionais. A pergunta que os tornaria visíveis está disponível. Cabe à medicina começar a fazê-la.

Referência;

Laginaf M, Costello H, Price G. How do ophthalmologists manage functional visual symptoms? A UK survey of ophthalmologists’ experience. Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology. 2022;260:1307–1313. https://doi.org/10.1007/s00417-021-05433-4

Artigo escrito por Dr. Ricardo Guimarães, Médico Oftalmologista.

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